A educação continuada tem o potencial de se tornar uma ponte vital para jovens que buscam novas oportunidades após vivenciarem alta vulnerabilidade ou terem estado envolvidos com o sistema judiciário. Na América Latina, a reintegração social da juventude exige modelos educacionais flexíveis e relevantes, capazes de se adaptar às diversas realidades. Este artigo compartilha lições aprendidas com uma experiência recente no Chile, onde a formação profissional foi combinada com apoio socioeducativo e trabalho comunitário, propondo estratégias-chave para avançar rumo a uma educação continuada verdadeiramente inclusiva.
A inclusão na educação continuada depende não apenas da abertura de espaços; requer uma estrutura institucional que coloque o indivíduo no centro, compreenda suas necessidades e reconheça as barreiras que ele enfrenta. No caso de jovens que se reintegraram à sociedade e ao mercado de trabalho, essas barreiras variam desde a falta de oportunidades de formação prévia até a desconfiança institucional e a ausência de redes comunitárias sólidas.
Uma iniciativa desenvolvida pela Universidade de La Frontera em colaboração com o Serviço Nacional de Formação e Emprego (SENCE) em 15 regiões do Chile demonstrou como a formação profissional pode se tornar um ambiente protetor quando combinada com apoio e relevância locais. Jovens a partir dos 16 anos participaram de cursos profissionalizantes em áreas como cabeleireiro, mecânica, construção civil e soldagem, entre outras, demonstrando grande interesse em adquirir habilidades práticas que lhes permitam planejar o futuro.
Um dos elementos-chave foi a elaboração de materiais pedagógicos adaptados: folhetos para os participantes, guias para os facilitadores e kits de ferramentas para o trabalho prático. Ao utilizar linguagem acessível, exemplos do cotidiano e metodologias de aprendizagem ativa, esses recursos facilitaram a compreensão e aumentaram a motivação. A adaptação pedagógica tornou-se um fator decisivo para garantir que o treinamento fosse significativo e não meramente instrumental.
Outra descoberta fundamental foi a importância de contar com equipes de treinamento especializadas. A participação da equipe acadêmica do Departamento de Psicologia da UFRO foi crucial para o treinamento e a sistematização dos resultados. O papel dos facilitadores, da equipe de apoio socioeducacional e da equipe de coordenação da Universidade mostrou-se essencial, não apenas para a instrução técnica, mas também para o apoio aos processos psicossociais, o manejo de dificuldades comportamentais e a construção de redes locais. A experiência demonstrou a necessidade de avançar rumo à profissionalização dessas funções na Educação Continuada.
Por fim, a participação das comunidades locais e das partes interessadas demonstrou que a reintegração social é um processo coletivo. Nas áreas onde houve colaboração ativa, os jovens conseguiram se integrar, sentir-se parte da comunidade e vislumbrar oportunidades reais de emprego.
As lições aprendidas demonstram que a formação continuada que facilita os processos de reintegração social de jovens é possível quando integra relevância pedagógica, coordenação intersetorial, apoio socioeducativo e colaboração comunitária. Convidamos instituições, equipes de formação e organizações a repensarem seus modelos de formação, incorporando princípios de inclusão, flexibilidade e sustentabilidade. A formação continuada pode ser uma força motriz para a reintegração e para oportunidades reais se colocarmos os jovens no centro do processo.
AUTORES: Awka Torres Poblete, Angélica Chavarría, Pablo Andrade, Divisão de Educação Continuada, Universidade de La Frontera.









